Ocidentalismo

por Leandro Oliveira

A cultura do rolê

A semana foi tomada pela discussão sobre o dito rolezinho – os eventos “meio arruaceiros, meio de esquerda”, para parodiar o título do livro do Toninho Prata, que tomaram de assalto (brincadeira inevitável) determinados shopping centers de São Paulo. Como trata-se de um fato cultural de muito mais fertilidade do que pode parecer à primeira vista, decidi dedicar um par de posts a respeito.

Gosto de duas referências de contextualização do caso, ambas disponíveis na internet. A primeira saiu na Folha de São Paulo. Ele lida com fontes de alto interesse pois diretamente envolvidas no caso. Jornalismo de informação de alto nível. A segunda referência foi feita pelo xará Leandro Beguoci - que se deu o trabalho enorme de trazer fatos de sua biografia mesclado com alguma análise cultural ligeiramente impressionista, mas muito rica. O impressionismo no entanto faz com que suas conclusões traga diversas contradições argumentativas. Pretendendo ser um texto a reivindicar vícios de leitura à esquerda e à direita, infelizmente peca na ânsia de ser “do centro”. Em suma: um bom contexto, mas dele Leandro tira conclusões pouco consistentes. De qualquer forma, segue sendo uma ótima referência de compreensão do caso em tela.

Ao longo da semana li e debati diversas opiniões a respeito. Assim amadureci as minhas próprias rebatendo – por vezes calorosamente – nas redes sociais e com minha companheira de armas. A diversão valeu a pena, o que é um duplo privilégio pois debater nem sempre é uma diversão, e fez a questão se adensar. Algumas opiniões públicas sintéticas que me interessaram (fortes, para maiores de idade) foram as de Rachel Sherazade e de Paulo Martins. A primeira apontando o que poucos deveriam discordar: é preciso haver limites no exercício de qualquer direito – limites que são, em maior parte, dado pelo próprio direito – e que as pessoas não deveriam fazer arruaça em locais privados de circulação pública. Quem resumiu nesses termos foi Diego Nabarro, um colega de Facebook (que possivelmente detestaria se ver chancelando Sherazade, mas afinal, queira ou não, concorda com ela).  Já Paulo chama atenção do que é para mim o ponto mais importante: a politização de um caso que deveria ser, na prática, de segurança pública e, na teoria, de crítica cultural ou sociologia da cultura.

Infelizmente, alguns textos de grande repercussão como o de Eliane Brum ou de Pedro Abramovay, se devidamente contextualizados pelas referências acima, perdem qualquer senso de oportunidade e tornam-se mero instrumento de proselitismo político. Mas pela repercussão tornam-se relevantes, sobretudo na compreensão do debate público acerca dos rolezinhos. A partir destes textos, eventos eminentemente recreativos e com excelentes questões estéticas desdobráveis em dilemas sobre decoro e cultura, viraram “manifestações”, e a reação a eles – ahimé! – “apartheid”.

Arte Radical e a carnavalização da sensibilidade artística

As meninas do Femen fizeram protesto durante missa de Natal na Alemanha. Os atos do grupo contam com um certo tipo de defesa que os trata como liberdade de expressão. Mais que de opinião, de expressão, como se o que fizessem fosse uma faceta da arte.

Não estranha, e sigo perguntando-me sobre o que afinal não seria arte hoje em dia. Até ontem, dar sopapos em guardas, vilipendiar símbolos e locais públicos ou destruir monumentos era sinal de tudo que chamaríamos por oposto a arte, barbárie. Sendo generosos, vá lá, um sinal de imaturidade, típico de adolescente mal-educado, que não sabe ainda se expressar direito. Arte pressupunha domínio de alguns meios, precários que fossem, como no caso dos guitarristas dos Ramones. O  público se aproximava como podia, repudiando ou não o resultado. E cada um convivia com sua tribo. 

Hoje o artista tem a permissão para tratar o público não como uma seleção de indivíduos com quem ele deveria tentar travar um diálogo, mas como um amontoado mais ou menos metafórico de opressores a quem ele deve acusar. A chamada Radical Art ofende  sob argumento de ser, a arte, uma resposta a agressões difusas da sociedade. Todo teórico da Arte Radical assume-a como um subproduto peculiar da arte engajada, portanto. Sim, há teóricos para a coisa. Parece piada macabra mas até os terroristas que jogaram aviões nas Torres Gêmeas encontraram entre figurões da nossa contemporaneidade, se não defensores, ao menos quem os justificasse. Não os justificaram sequer como políticos, mas como artistas pós-modernos.

E se até Osama Bin Laden está se expressando, por que não as garotinhas do Pussy Riot ou as peladonas do Femen? Bruno Torturra – que nome é destino, ora pois – sugeriu que “os black blocks usam de uma estética”. É possível argumentar a seu favor, inclusive, que não há mortos envolvidos  nos happenings da turba (não que não tenham tentado). Não adianta: assim seremos entendidos pelos nossos netos. Nossa contribuição para a história da cultura é a de ter entendido a ofensa e a agressão e o caos como facetas do Belo, do Bom e do Justo.

Arte radical e idiotia


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Saiu o indulto aos pequenos criminosos por conta do aniversário de 20 anos da nova Constituição russa. Concedido pelo Parlamento local, trata-se de uma anistia de verdade já que, pelas palavras do presidente Vladimir Putin, “não se trata de uma desculpabilização dos seus crimes, nem de uma crítica aos tribunais”. Podemos entender, é apenas um esquecimento. Entre os recém libertos, três membros da banda Pussy Riot. O ato parlamentar se deu às vésperas do Natal no ocidente. Ironia pois sua prisão, em março do ano passado, foi devida a encenação dentro de uma Igreja Cristã Ortodoxa de uma “oração” anti-governo e anti-clero (naquele país, o alto clero apoia Putin).

A Igreja assumiu como blasfemas as ações que justificaram a prisão. As meninas da banda agrediram assim não apenas o governo – aliás, já haviam agredido o governo antes, sem maiores sanções – mas sobretudo a sensibilidade religiosa de grande parte dos cidadãos russos.

Detestaria passar meu final de semana defendendo o presidente Putin, mas este é o maior dano dos radicais: faz com que os intelectualmente honestos tenham que gastar tempo e, ao limite, posicionar-se ponderando a razoabilidade das ações de chefes de governo como ele. Para ser intelectualmente honesto, portanto, há que se ater ao fato de que havia na nova constituição russa a previsão da prisão por “vandalismo motivado por sentimento anti-religioso” e devemos colocar à vista a particularíssima realidade pós-soviética, para qual esse foi um ganho incomensurável.

O direito à profissão religiosa e o respeito à liberdade de culto é um avanço da sociedade russa pós-perestroika. Ou seja, ao ofender o templo e os religiosos, Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Yekaterina Samutsevich mexeram com algo análogo à nossa recente sensibilidade igualitária.

Por conta disso é que embora pudesse ser, em outro contexto, uma demonstração de cinismo político, a resposta de Putin é mais que correta, como aquela que se espera de um chefe-de-família: “tenho pena delas não por se encontrarem presas, embora não haja nada de bom nisso, mas por terem chegado a tal ponto que tenham tido este comportamento escandaloso, que do meu ponto de vista é humilhante para as mulheres. Elas violaram todas as normas para conseguir protagonismo.”

Tolokonnikova, Alyokhina e Samutsevich se tornam, com todo seu radicalismo, idiotas úteis à serviço da máquina interna da propaganda pró-Putin. Não há dúvida que o presidente ganhou pontos com seu público interno razoável, aquele que sabe que o limite de seus atos está no respeito a liberdade do outro.

Entre os fernandos, fico com a Lima

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Fico sempre cá a pensar se quando Lula encontrou a metáfora dos postes para eleger Dilma e Haddad, mesmo que pessoalmente ignorasse a teoria, tratava de reeditar em nível nacional o apadrinhamento eleitoral típico da sociedade dos coronéis. Apadrinhamento particular, pois não apenas patrocina candidaturas, algo normal, desejável até em se tratando de política pública. Não há nada de especioso em votarmos nas indicações de nosso candidato, que garante aos eleitores alguma credibilidade na filiação. Nesses termos, Lula apenas dispunha candidatos à sua enorme base eleitoral.

A curiosidade é que Lula indicava figuras inexpressivas, fracas mesmo. Muitos diriam, “marionetes”. E aqui, o traço do coronel… Algo para os sociólogos. Sei que para justificar o auto-engano de parte do corpo mais sofisticado dentre seus militantes, os marqueteiros criaram para os candidatos ungidos a ideia do “técnico” e “gestor” de alto nível: Dilma recebe o epiteto “a gerentona”, mesmo tendo sido sob sua jurisdição o enorme black out que parou quase todas as cidade brasileiras; Haddad, “o executivo”, mesmo tendo feito sepultar umas das melhores idéias do ministro Paulo Renato, a do Provão, que permitia, pela primeira vez na história do Brasil, o diagnóstico anual de nossa (d)eficiência educacional. Sob a gestão do atual prefeito e então Ministro da Educação, a coisa se transformou no vestibular de critérios duvidosos pelo corte de alto teor ideológico e fraudes recorrentes a que chamamos de Enem.

Desconheço se nossos cientistas sociais e os psicanalistas estudiosos da cultura se debruçam ou não sobre esses assuntos, mas acho que daria pano para manga. Tanto a nacionalização do coronelismo quanto o auto-engano de nossa classe média são elementos extraordinários da cultura brasileira, latentes desde os primórdios da República. Mas o que os governos recentes fizeram foi dar água a tal solo fértil. Coisa para os estudiosos, e Ocidentalismo.com não é um site de política ou ciência política e sim de crítica cultural.

As observações que acabo de fazer são apenas para contextualizar uma sedizente entrevista de “O Estado de São Paulo” com Fernando Haddad, há quase um ano prefeito da capital. Não uma entrevista qualquer mas, com chamada de capa, aquela que pretende realizar uma espécie de acerto geral do primeiro ano de sua gestão frente ao município (“Haddad fecha 1o ano sob pressão das ruas, dos tribunais e do PT“, em Metrópole A25 e A25, de 22 de dezembro de 2013).

Jornalisticamente, portanto, a matéria é de absoluta pertinência. Mas Artur Rodrigues e Marcelo Godoy, seus autores, chamam logo de início a atenção justamente para a opção por “justificativas técnicas para diversas decisões” que teriam sido tomadas pelo prefeito ao longo do ano – o que é uma enormidade para ser afirmado sem provas, sem contraditos, ou sem o uso do termo tão querido em nossas redações, o “suposto”. “Supostas justificativas técnicas para diversas decisões” seria de bom efeito. E quase resolveria a apresentação da matéria.

Pois o caso é que com um mínimo de compromisso com a verdade, deveria ficar claro que embora se justifique assim, de técnico o prefeito não FEZ muita coisa: sua opção por acatar o pedido de tarifa de ônibus a R$3,00 não foi técnica (vide a briga pela sua manutenção vinte centavos mais caro), sua opção pelo IPTU acima da inflação não foi técnica (vide a querela judicial decorrente), sua opção pelas faixas de ônibus não foi técnica (vide o caos instalado na cidade). A opção pelo “liberou geral” na Cracolândia não é técnica. Todas são opções políticas, algumas ideológicas e calcadas na metafísica elementar da luta de classes. Sequer os acertos incontestáveis de Fernando Haddad, como o da criação da Controladoria Geral do Município, são assumidos em tom técnico – as denúncias de corrupção geradas por ali encontraram através do prefeito e seus comunicadores um inconfundível viés de “nós contra eles” (o que não à toa o fez desgastar-se com Gilberto Kassab)

Sobretudo, atendo-se apenas à entrevista, de técnico o prefeito não DIZ nada. Ao contrário: a qualquer oportunidade ele ataca o governo do estado (vide a menção aos protestos e segurança), o governo FHC (no capítulo renegociação da dívida), e os prefeitos – todos! – depois de… Marta Suplicy (capítulo faixas de ônibus, entre outros). Evidentemente, elogia o governo Dilma sempre que pode. Ou seja, ele apenas diz o que as forças políticas que o apoiam esperam que ele diga, defende sua famiglia e acusa seus adversários – a despeito de suas qualidades ou defeitos. Isso não é coisa muito técnica.

Não é técnico, não é muito nobre mas, vá lá, é do jogo político. Mas o jogo político não é o jogo jornalístico, Mas disso se trata o endosso dos jornalistas: a entrevista não apresenta qualquer contraditório, qualquer senão. Da forma como foi editada e diagramada, Haddad fala livremente, na primeira pessoa, tece elogios a si e critica erros como se dele não fossem. E assim temos o prefeito que causou uma série de polêmicas públicas na maior cidade da América do Sul, um ano após assumir o cargo, com uma página inteira de domingo no segundo jornal do estado. E para quê? Para voltar à retórica de campanha, comentando uma série de intenções sem qualquer plano executivo de operação que o respalde – se há dúvidas, basta ler com os próprios olhos quando fala do caos da região da Luz e Parque Dom Pedro. Esta lá: “nós queremos construir uma solução… vamos nos dedicar a esse território. Vamos resolver esses problemas.”

“Entendo… mas como, senhor prefeito?”

Essa é a pergunta, a que não foi feita.

Ironias do jornalismo: no domingo, ficou fácil perceber que a opção editorial da entrevista de Fernando Haddad para o caderno Metrópole do Estadão é, coincidentemente, a mesma da entrevista de Fernanda Lima para a colunista Mônica Bérgamo da Folha de São Paulo. Tampouco sabemos as perguntas feitas à Fernanda Lima e, lá como aqui, saímos com referências não mais que impressionistas das opiniões dos belos do dia. Na comparação, justiça se faça, a entrevista da Folha é até mais habilidosa em tirar do entrevistado algumas opiniões difíceis.

Quem lê ambas fica com a impressão que Fernanda Lima tem opiniões mais sinceras que Fernando Haddad, e que a Folha tem menos medo de seus personagens que o Estadão.

Do jeito que está, a entrevista de Haddad deveria ter saído pela revista “Poder” do grupo Joyce Pascowitch – ao menos, conta-se ali com a opção deliberada pelo positivo, conciliatório e incontroverso, qualquer que seja o caso em questão. Estando no caderno Metrópole de domingo, o Estadão deixa de cumprir aquela função pública do jornalismo que está para muito além de entreter a população, a de cobrar respostas objetivas dos agentes públicos.

A lástima deste post de Ocidentalismo.com é quanto o jornalismo do Estadão, não a política do prefeito. Ele foi eleito para fazer o que faz, e o caos que impera na cidade é em muitas medidas culpa dos eleitores. Mas o caso é que Haddad vem se mostrando um administrador controverso, mesmo entre seus pares petistas. Assim é por questão de fato, não de gosto. E assim seguiria sendo, mesmo contando com o apoio pessoal de Artur Rodrigues e Marcelo Godoy ou do jornal “O Estado de São Paulo” inteiro. Suas decisões fazem com que, entre a população, haja atualmente muitos mais entre os que o desaprovam, e para seus opositores a avaliação mais benevolente seja o de um incompetente cheio de boas intenções. Lastimável, reitero, pois há que cultivar um jornalismo muito fraco para tratar um personagem assim, no calor de sua notoriedade, como figura para colunismo da alta sociedade.

O silêncio dos inocentes

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A Venezuela acaba de perder seu Comandante – o militarismo não disfarçado do termo não deixa de ser de cafonice abissal – e com sua morte abre-se as portas para um futuro nebuloso; como todos que estudamos história sabemos, a morte de um caudilho é sempre a oportunidade para guerras intestinas entre os correligionários de segundo escalão. Não sabemos quem poderá aglutinar as forças políticas venezuelanas após Hugo Chavez, e isso não é tarefa para análise ligeira.

Tenho amigos que costumam ser muito rigorosos quando enfrentam a relação entre arte e política. Para alguns deles os assuntos não devem se misturar ao preço da desarticulação de um e de outro; para outros, idealistas ou niilistas, a própria tentativa de relação é anátema, e seguem advogando a tese do modernismo pós-guerra, a arte como uma expressão ontologicamente apolítica: ontologicamente quer dizer aqui não que a arte deva evitar a discussão política – antes e por natureza, ela é incapaz de levar a discussão adiante.

Não deixa de ser melancólico. O problema de um sujeito não se interessar por política não é, como diz o adágio, ser governado por aqueles que se interessam: estamos sempre sob o governo ou chefia de alguém, em qualquer estrutura de organização, política ou não, e isso independe de nosso interesse. O problema de um artista não se interessar por política é que fica a um passo da pusilanimidade. E o medo é a ante-sala da paralisia, cujo preço é cobrado não nos momentos de alegria e festa mas nas raras decisões circunstanciadas pela vida e morte. Um artista deve interessar-se por política não para melhorar o mundo ou fazer passeata pelos botos cor-de-rosa, mas para fortalecer o espírito quando da eventualíssima necessidade da guerra. Como se diria onde nasci, para não “arregar” quando chamado à frente de batalha.

A música clássica teve na Venezuela chavista seus anos dourados: nestes últimos quatorze anos o país se viu pela primeira no centro do furacão do mercado, nos corações dos bem-pensantes e na mente dos especialistas; o nome para tal acontecimento chama-se “El Sistema” – o projeto do maestro José Abreu de inclusão social por meio da educação musical clássica. Sua relevância para o ambiente da música de concerto contemporânea pode ser medido pelo impacto na mídia de cada uma das apresentações de sua orquestra, pela influência extra-muros de alguns de seus alunos (alguém não ouviu falar de Gustavo Dudamel?), ou de artigos de críticos respeitáveis que apontam o projeto como salvação da música clássica (estamos, na alta cultura, sempre a espera do Armagedon).

Em tempos de Chavez, causa espécie o flagrante uso político do projeto. Embora “El Sistema” exista há mais de 30 anos, foi com as turnês internacionais patrocinadas por Hugo Chavez, e chancelados por artistas calibrados e filocomunistas como Claudio Abbado, que a orquestra deixou de ser um projeto de inclusão social para alcançar o status de Filarmônica de Berlim dos trópicos.

Qualquer um que a escute com os dois ouvidos forçosamente sabe que não é o caso.

Nestas oportunidades, de qualquer maneira, os músicos apresentam-se com um modelito de gosto duvidoso, a revisitação do moleton esportivo de Fidel Castro com as cores nacionais venezuelanas. Gustavo Dudamel – arte não pode tratar de política, certo? – jamais se absteve de ser a marionete de um projeto de poder, deixando-se instrumentalizar, conscientemente ou não, ao receber calado o prestígio das grandes orquestras e sociedades de concerto de todo mundo enquanto presenciava as agruras de seu país. Em termos políticos Dudamel não serve como porta-voz (fala a respeito apenas para justificar-se nos argumentos tolos de que “música é energia para alma“); Dudamel é a übermodel deste quimérico socialismo do século XXI, sua Christy Turlington.

Embora aparentemente não ligasse para música clássica, Chavez foi muito habilidoso em sua cooptação de uma instituição artística para fins políticos – um de seus últimos atos foi dar a direção de “El Sistema” a um de seus fiéis correligionários. Mais do que o financiamento – a compra de fato do projeto – assusta a compra das consciências, um artíficio nada raro no mundo da arte desde tempos imemoriais. Artistas quase sempre estão na penúria da próxima sinecura. No caso da Venezuela, dissidentes como a pianista Gabriela Montero são um alento pela coragem e a disponibilidade de arriscar sua carreira e conforto para dizer o que pensam; mas são casos raros.

Em sua entrevista para “Paris Review”, Woody Allen comenta achar curioso o tipo de auto-promoção que artistas fazem quando advogam a si mesmos o status de pessoas que “assumem riscos”.

Artistic risks are like show-business risks — laughable. Like casting against type, wow, what danger! Risks are where your life is on the line. The people who took risks against the Nazis or some of the Russian poets who stood up against the state — those people are courageous and brave, and that’s really an achievement.

Allen é um realista e fala da vida como ela é; para a vida como ela é, o acontecimento de fato não é enclausurar-se no edificio da beleza da arte e suas epifanias. Isso não é resistir, mas fugir. O que Allen não diz é que a fuga daqueles que tem os meios para fazer a diferença é tudo que os projetos totalitários querem. Para que as coisas tenham alcançado a dimensão que alcançaram na Venezuela, seus artistas influentes devem ter estado calados por tempo demais. Meus votos é que com a morte de Chavez um golpe de liberdade de expressão vente sobre aquele pobre país.

A morte de Hugo Chavez e a carta da pianista Gabriela Montero

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Gabriela Montero, pianista que fez as cabeças de todos nós com seus improvisos na Sala São Paulo em 2007 – e que volta na temporada 2013 do Cultura Artística – é, no meio artístico, uma das dissidentes mais proeminentes dos desmandos de Hugo Chavez. Sobre a morte do protoditador, publica uma carta aberta no seu perfil do Facebook.

Today, Chavez died. Venezuela needs a renewal. We don’t need the emotional and social disease that has infiltrated our society. We need POSITIVE change for all. We don’t need the attempts of the government to instill more paranoia. The “Imperialists” did not poison Chavez and cause his cancer. We need to work towards a Venezuela free of these toxic thoughts that defy logic and manipulate the emotions of the Venezuelan people. We need good people to lead. I congratulate the students in my country for being so brave and selfless. To all those people who are mourning the death of one man, please, mourn the 21,000 plus people who were murdered in Venezuela last year. Think about that very real figure. Who is mourning all those victims? Think about the social decay that Venezuelans live in, day in and day out. Let’s keep the perspective of our recent history, and be conscious that a lot of work needs to be done.

Paul Auster: poesia completa em português

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O Estadão dá destaque este domingo à tradução da obra poética completa de Paul Auster. Em sua maior parte, obras de juventude, traduzidas pela primeira vez para o português por Caetano Galindo – responsável pela recente e ótima tradução do “Ulysses” de James Joyce, que saiu pela mesma Companhia das Letras. Um trecho da entrevista com o autor, feita pelo Antonio Gonçalves Filho.

A poesia do escritor norte-americano Paul Auster é pouco ou nada conhecida entre seus leitores brasileiros. Traduzida por Caetano W. Galindo, ela foi reunida em Todos os Poemas, que chegou às livrarias ontem. O livro, organizado de forma cronológica, cobre o período entre 1970 e 1979 – época em que o romancista integrava um grupo de estudos sobre poesia contemporânea francesa. Acompanhado de uma esclarecedora introdução do cientista político Norman Finkelstein, Todos os Poemas é, a exemplo de muitos dos livros de Auster, autobiográfico por natureza, evocando desde a infância do escritor em New Jersey até sua juventude em Paris, quando, aos 25 anos, ao acompanhar a eleição presidencial na embaixada americana, testemunhou a vitória de Nixon, em 1972, e escreveu um dos seus mais raivosos poemas.

Sua produção literária vai da poesia à prosa, passando por uma experiência como dramaturgo, da qual você não gosta muito de lembrar (ele é autor da peça em um ato, Hide and Seek, de 1976, duelo verbal entre um homem e uma mulher). O que o fez largar a poesia e se decidir pela prosa?
Essa é uma questão complicada. Quando jovem, escrevia centenas de páginas de prosa, mas nunca ficava satisfeito. Minha ambição era escrever romances, não poesia, projetos ambiciosos, complexos, muito além da minha capacidade. Ficava frustrado com essa minha inabilidade e, aos 22 anos, resolvi me concentrar na poesia, a tal ponto que ela virou obsessão. Veio um momento difícil e, repentinamente, parei de escrever. Quando retomei, já estava escrevendo prosa. Foi uma evolução lenta, natural.

Então, você não escreveu mais poesia?
Não. Tudo o que escrevi no gênero está no livro. Às vezes faço um ou outro poema para homenagear amigos aniversariantes, mas só isso.

Como um admirador da filosofia de Wittgenstein, sua poesia explora os limites da linguagem com curtos, mas densos, poemas, num crescendo que chega a Espaços em Branco (como White Spaces é traduzido no livro), concluído em 1979, quando seu pai morreu. Você se via como um poeta experimental, na época?
Não sei. O lado experimental nunca me disse muito. Tentei, sim, explorar os limites da linguagem, mas não como meta puramente formal. Meus poemas não falam de aviões ou de televisão, ou seja, não estão inseridos no mundo moderno. Eles têm mais a ver com a poesia feita no passado: Emily Dickinson, por exemplo. Tentei cavar e cavei fundo para chegar lá, mas concluí que destruía mais do que conservava. White Spaces representou uma nova possibilidade. Foi o primeiro texto de minha nova vida, a de prosador, que começa com a morte de meu pai (choque que o deixou com a sensação de um relacionamento inacabado, sentimento explorado mais tarde no autobiográfico ‘A Invenção da Solidão’).

Sua estreia em prosa, A Invenção da Solidão, publicado em 1982, fala justamente da morte de seu pai, mas, curiosamente, há um poema em Todos os PoemasDesaparecimentos (Disappearences, 1975), que soa premonitório, ao tratar da ausência de alguém que respira pela última vez, metaforizando pedras que se juntam para erguer um muro, como se fosse uma sepultura. Você vê ligação entre Desaparecimentos e White Spaces?
Não propriamente. Desaparecimentos era uma maneira de falar do sentimento de solidão do indivíduo no meio urbano, sobre a comunicação numa língua de pedra que abre caminho para outras pedras, erguendo um muro que, no fim, é um amontoado de pedras monstruosas. A primeira parte de A Invenção da Solidão foi escrita após a morte de meu pai, sob forte impacto emocional. Ele morreu subitamente. Era uma pessoa saudável e isso me deixou com várias perguntas sem respostas. Quando comecei a escrever, me dei conta do quanto era difícil falar de uma pessoa ausente e, especialmente, questionei se seria possível traduzir esse sentimento. Durante três anos, de 2008 em diante, troquei cartas com Coetzee (o escritor sul-africano ganhador do Nobel de 2003), que foram reunidas num livro, Here and Now (Aqui e Agora), a ser lançado dia 7 nos EUA. Ao comentar esse sentimento com Coetzee, ele me disse: “Às vezes também me sinto como alguém que deixa a mala no meio do caminho e continua a andar, pois não há a mínima possibilidade de volta a partir desse ponto”. (…)

por Antonio Gonçalves Filho – na íntegra aqui.

Diretor dissidente iraniano ganha Urso de Ouro em Berlim

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O Irã se queixou aos organizadores do Festival de Cinema de Berlim por dar ao diretor iraniano Jafar Panahi um prêmio por um filme feito desafiando uma proibição estatal de 20 anos.

Panahi dividiu o prêmio de melhor roteiro em Berlim no sábado por “Closed Curtain” com o codiretor Kamboziya Partovi por um filme feito em segredo, que reflete os aspectos da vida de Panahi na prisão domiciliar na República Islâmica.

“Nós protestamos junto ao Festival de Cinema de Berlim. Suas autoridades devem consertar o seu comportamento, porque na troca cultural e cinematográfica, isso não é correto”, disse Javad Shamaqdari, chefe da organização nacional de cinema do Irã, relatou a agência iraniana de notícias estudantil (ISNA) na segunda-feira. (…)

No Estadão online – íntegra aqui.

Os intolerantes

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Chateado com a recepção calorosa a Yoani Sánchez? Na Turquia, na última segunda feira, um artista para se defender de intolerantes de outra ordem, precisou se auto-proclamar autista.

Esta foi uma das alegadas defesas do pianista Fazil Say em audiência ontem onde, após postar tweets de provocação a algumas referências do Islã, é acusado de blasfêmia.

Fazil exordiu no mundo clássico em 1998 quando foi capa da Le Monde de la Musique. Tratava-se do típico “polêmico” – uma das máscaras com as quais classificamos os intérpretes do mundo clássico de nosso tempo. Como Glenn Gould, por exemplo, era responsável por uma leitura idiossincrática de Mozart (foi exatamente  a gravação das sonatas do compositor pelo poderoso selo Warner que o fez um queridinho), de improvisações pseudo jazzistas e otras cositas más; diferente de Gould, no entanto, é um bicho do teatro, que amava apresentar-se em público e contagiava a platéia em cada performance, sendo recebido por vezes com uma certa aura de culto que ia para além dos limites de sua qualidade artística.

Assinou com a Teldec por quatro lançamentos –  recomendo vivamente a Rhapsody in Blue  e I Got Rhythm Variations de Gershwin, com a Filarmônica de Nova Iorque, sob a direcção de Kurt Masur e o ótimo arranjo da Sagração da Primavera de Stravinsky, para piano a quatro mãos, onde toca as partes de ambos os pianistas (por esta recebeu o Echo Klassik, entre outros).

Após ser catapultado às estrelas, Fazil transformou-se um pouco. Passou a dar ênfase na sua produção criativa como compositor, e perdeu com isso parte importante da estrutura de marketing que justificava suas licenças; da Teldec passou para selos menores, e é hoje o que Drummond chamaria de um gauche na vida…

Não sei de questões doutrinais para assegurar se há ou não blasfêmia no caso – Say publicou uma frase onde associa a velocidade de certa oração à ansiedade para fazer algumas libertinagens – mas de fato, não há muita sutileza na coisa.

Nada disso me permitiria, evidentemente, justificar ou contradizer  a condenação em dezoito meses de prisão pelo ocorrido. Fazil é um ateísta confesso, e pelo jeito militante. Agiu no caso como um adolescente – mutatis mutandi, como agiram os organizadores da Parada Gay de 2011, a dos santos musculosos.

(Aqui, o pastor Silas Malafaia sugeriu que a Cúria fosse para o confronto direto, e por isso foi acusado de incitação à violência por uma Ong que defende o direito dos gays - e foi absolvido.)

Não é possível saber até que ponto os ofendidos – lá e cá – são sinceros. Mas no particular, é claro que a ofensa de Fazil é intencional. Os fãs do pianista defendem o estatuto de artista, que faria de Fazil uma pessoa especial (para sua defesa, especialíssimo, já que quase autista!). Muitos de nós reivindicaríamos a liberdade de expressão, o que, pelo que me parece, inexiste como premissa jurídica na Turquia quando o assunto é política ou islamismo.

O imbróglio, pela profusão de intolerantes, é desagradável.

Reaprendendo a pensar

Há tempos declarei guerra santa – Jihad! – à ignorância. À ignorância em geral, mas também e sobretudo à minha própria, com a qual nasci e contra a qual luto por toda a vida. Pois se as bestas nascem e desde o primeiro dia gato é gato, cão é cão, cavalo é cavalo, os homens, ao contrário, nascem mas não são ainda homens. Devem tornar-se homens. E para isso, precisam de aprendizado e educação, dos conhecimentos acumulados e transmitidos pelas gerações passadas. Em poucas palavras, de cultura e tradição. Sem ambas poderemos ser “homo”, mas seguramente jamais “sapiens”.

Ocidentalismo.com é uma revista digital sobre cultura e idéias, artes e ciência, filosofia e comportamento. Questões atuais, sejam elas locais, nacionais ou internacionais, são apresentadas à luz da grande tradição da cultura ocidental, trazendo parâmetros para a discussão de problemas reais do dia-a-dia de cada um de nós. Por isso, Ocidentalismo.com é atualizado diariamente, de segunda a sexta-feira em formatos variados como reportagens, ensaios pessoais, crítica, memórias, textos ficcionais ou registros de viagem.

Acreditamos que a reflexão criteriosa exposta de forma clara é o que une de fato uma publicação à seus leitores – e isso independe de idade, gênero, nível educacional e salário. Depende apenas da vontade de compartilhar de modo sincero a curiosidade intelectual. Ocidentalismo.org é uma revista independente escrita para pessoas que curtem ler e pensar sobre aquilo que lêem.

Uma publicação cultural é, de fato, uma empreitada sofisticada que, por mais leitores que tenha, terá sua qualidade medida, sempre, pela qualidade de seu pior leitor. É dividir o prazer e a angústia de ler Homero ou Dante, Brodsky ou Geoffrey Hill; de ouvir Bach ou Arvo Pärt e seguir as curvas da dança de uma Pina Bausch. É reter em nossas mentes e corações os grandes – os terríveis, no sentido que os gregos dão ao termo – momentos da empreitada humana.

Eis uma empreitada que seleciona – autores, temas e leitores. Isso quero com Ocidentalismo.com . À luta pois, contra o obscurantismo de nossos difíceis tempos! (Nem tão difíceis…)

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